MPF e bancos avançam em medidas de combate a fraudes no crédito consignado
Em cenário de crescente preocupação com a vulnerabilidade dos
consumidores em operações financeiras, especialmente aposentados e
pensionistas do Instituto Nacional Seguro Social (INSS), o Ministério
Público Federal (MPF) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) têm
consolidado compromissos estratégicos para combater fraudes e
aperfeiçoar a segurança nas operações de empréstimos bancários com
descontos em consignação. Encontro entre as instituições, realizado na
última quinta-feira (10), teve como foco incentivar o aprimoramento de
normas e da autorregulação, visando fortalecer os instrumentos de
comprovação de validade e de pleno consentimento do consumidor, e assim
reduzir a vulnerabilidade a golpes.
A iniciativa do MPF surge a partir do aumento nas denúncias que
envolvem contratações não autorizadas e descontos indevidos de
empréstimos consignados. Este panorama levou o MPF a instaurar um
procedimento administrativo para apurar as irregularidades e fortalecer
os mecanismos de proteção aos consumidores, em particular os
beneficiários do INSS, que são frequentemente as principais vítimas.
Durante a reunião, os membros da Comissão de Sistema Financeiro
Nacional da 3ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF registraram a
gravidade da situação, destacando o aumento no número de representações
de cidadãos vítimas de crimes financeiros. Ele ressaltou que o tema está
sendo tratado com alta prioridade dentro do Ministério Público, em
diferentes esferas, e que a 3ªCCR/MPF tem buscado proativamente junto
aos agentes econômicos formas de aprimorar a contratação e a
transparência dos contratos de empréstimos, inclusive em relação àqueles
obtidos junto a correspondentes bancários.
Medidas protetivas e corretivas - Nesse contexto, a
Febraban apresentou medidas preventivas e corretivas adotadas pelo setor
bancário, com um foco especial na autorregulação iniciada em 2020.
Entre as principais ações implementadas, destaca-se a recente
obrigatoriedade da biometria facial, uma medida crucial para a
autenticação.
Além da biometria, o setor bancário tem incorporado outras
tecnologias para aumentar a segurança das operações. “As contratações
agora contam com recursos como geolocalização, reconhecimento de imagem e
detecção de inconsistências documentais em tempo real, o que significa
que há uma verificação mais robusta e imediata da validade e da
autenticidade de cada transação, tornando o ambiente muito mais seguro
para o consumidor”, destacou Amaury Oliva.
Apesar dos avanços, o MPF, por meio dos procuradores da República
Hilton Melo, Alfredo Falcão e Cláudio Gheventer, reiterou dois pontos
prioritários para fortalecer ainda mais a proteção ao consumidor. Em
primeiro lugar, exigiu a entrega imediata, ao consumidor, de todos os
elementos comprobatórios da operação, incluindo cópia do contrato,
biometria, geolocalização, logs e demais metadados. A medida é
fundamental para fins de defesa administrativa e judicial, garantindo
transparência total e acesso à informação.
O procurador Hilton Melo chamou a atenção para falhas concretas de
grandes bancos no fornecimento das informações, como a inoperância de
canais de WhatsApp para esse fim, ressaltando a urgência de canais e
fluxos adequados de atendimento para consumidores que desejem acesso
direto e rápido a cópias de contratos e dados relacionados à
contratação, especialmente diante de suspeitas de fraudes.
O segundo ponto prioritário é a implementação da videochamada como
mecanismo de verificação do consentimento do consumidor. Esta consiste
na gravação de imagem e diálogo, atuando como uma camada adicional para a
verificação da plena aceitação do usuário quanto aos termos da
contratação. Essa proposta está em consonância com práticas
internacionais, como as adotadas pelo Conselho de Segurança da União
Europeia, onde contratos sensíveis exigem múltiplas camadas de
autenticação, inclusive presencial ou por videoconferência. O procurador
Alfredo Falcão enfatizou que o modelo de videoverificação deve ser
incorporado como “requisito mínimo, e não apenas como opção
tecnológica", dada a sua capacidade de proteger contra a criação de
identidades falsas e contas fraudulentas.
A Febraban acolheu essa demanda e informou que já está em fase de
testes com resultados promissores. Segundo esclarecimentos dos
representantes da Febraban, a videochamada já implementada de forma
piloto por algumas instituições consiste em uma entrevista com o
consumidor, conduzida por um atendente humano ou por uma interface
digital (inteligência artificial), para a validação da autenticidade da
operação.
O procurador Hilton Melo reiterou a necessidade urgente de se
estabelecer um cronograma de universalização da videochamada como etapa
obrigatória da jornada de contratação. Ele salientou que a videochamada,
quando bem estruturada, é uma entrevista conduzida por um terceiro
contratado, na qual são coletadas declarações explícitas sobre o
entendimento e aceitação das condições do contrato, garantindo assim a
autenticidade das operações.
Encaminhamentos - A cooperação interinstitucional
resultou em encaminhamentos, incluindo o compromisso da Febraban de
enviar ao Ministério Público Federal o resultado da estruturação de
canais adequados para atendimento aos consumidores que desejem acesso
aos elementos comprobatórios das contratações realizadas (tais como
cópias contratuais, registros biométricos, logs, geolocalização e
metadados), além de um mapeamento quanto ao estágio atual de
implementação da tecnologia da videochamada entre os bancos e seus
correspondentes, apresentando também um cronograma para a ampla adoção e
uniformização desses procedimentos até 2026.
