Auditoria do TCE-PB aponta abandono de imóveis históricos e propõe soluções integradas para revitalização urbana
Durante a conferência “Cultura, Patrimônio Cultural e Cidadania: o
papel da gestão pública e a atuação do Tribunal de Contas”, realizada
nesta sexta-feira (11), os auditores de controle externo do Tribunal de
Contas do Estado da Paraíba (TCE-PB), Waldir Dinoá e Júlio Uchoa,
apresentaram os principais achados parciais da Auditoria Temática em
andamento sobre a preservação do patrimônio cultural.
O trabalho, desenvolvido em parceria com o Tribunal de Contas do
Estado de Pernambuco (TCE-PE), tem como objetivo identificar
fragilidades, propor soluções e fomentar políticas públicas integradas
voltadas à revitalização de áreas históricas.
Com duração prevista de dois anos, a auditoria concentra-se, no caso
da Paraíba, na fiscalização de bens imóveis tombados, com foco especial
na cidade de João Pessoa, que abriga cerca de 500 edificações
localizadas em zonas de preservação rigorosa. A escolha pelo recorte
urbano, segundo os auditores, considera tanto a relevância do acervo
arquitetônico quanto as limitações estruturais dos órgãos responsáveis.
“O Iphaep, por exemplo, que é quem cuida do patrimônio aqui, tem uma
infraestrutura muito pequena diante da grandeza do acervo paraibano”,
destacou Waldir Dinoá.
Um dos principais achados revelados pela auditoria é que o desafio da
preservação vai além da restauração de edificações isoladas. O trabalho
evidencia a necessidade de recuperar o entorno urbano de forma
sustentável, devolvendo vida, funcionalidade e sentido aos bairros
históricos. “Queremos que o imóvel esteja inserido em uma zona que tenha
significado para a cidade e qualidade para quem vive e circula por ali.
É um trabalho que vai além da edificação”, explicou Dinoá.
A equipe também apresentou casos emblemáticos que ilustram a situação
crítica do patrimônio cultural paraibano. Um deles é o do Teatro
Severino Cabral, em Campina Grande, que abriga um mural de 20 metros por
10 metros do artista Roberto Magalhães, hoje encoberto por construções
irregulares. “Até funcionários do teatro desconheciam a existência da
obra. Temos imagens que mostram como o mural foi sufocado ao longo dos
anos”, relatou o auditor.
Em João Pessoa, imóveis históricos da Avenida Duque de Caxias
enfrentam risco de desabamento. O centro da capital, que já foi um polo
comercial e cultural vibrante, sofre atualmente com o abandono e a
vulnerabilidade social. “Cresci indo ao centro para comprar discos e
livros, e hoje vejo um processo de segregação. As áreas nobres foram
deslocadas para a orla, enquanto o centro histórico foi entregue à
degradação, insegurança, consumo de drogas e prostituição”, lamentou
Dinoá, citando como exemplo o Pavilhão do Chá e o prédio da antiga
Academia de Comércio, atualmente em ruínas.
Além de diagnosticar deficiências estruturais e de gestão, a
auditoria busca abrir espaço para o diálogo entre gestores públicos,
especialistas e sociedade civil. A proposta é construir soluções
coletivas e sustentáveis que revitalizem não apenas os prédios, mas todo
o ambiente urbano histórico. “A ideia é ultrapassar a simples
restauração de fachadas e resgatar o pertencimento e a vida nesses
locais”, reforçou Dinoá.
A iniciativa reforça o papel dos Tribunais de Contas na fiscalização
das políticas públicas de cultura, patrimônio e cidadania, ampliando o
foco para além da análise contábil e reafirmando o compromisso com a
preservação da identidade histórica e cultural das cidades.
